Carlos Bolsonaro confunde LGPD com LGBT e rebate crítica: “Mentirosos”
Em uma discursão na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos), filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), confundiu a expressão “autodeterminação informativa”, presente na nova Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), com “identidade de gênero”, tema relacionado à política de garantia de direitos da população LGBT.
Ele pediu a palavra para reclamar contra a presença da expressão na lei sobre proteção de dados, que significa o direito de exercer o controle sobre seus dados pessoais, decidindo se a informação pode ser objeto de tratamento (coleta, uso, transferência) por terceiros, ou mesmo ter direito à transparência sobre a destinação dada às suas informações pessoais, assim como acessar bancos de dados para exigir correção ou cancelamento de informações pessoais.
Veja:
Carlos criticou o princípio, alegando, entre outras coisas que “vê por aí gente que inclusive se autodenomina tigre, leão, jacaré, papagaio, periquito”.
O filho do presidente ainda tentou se prevenir de críticas, ressaltando aos demais vereadores que não se tratava de uma “piada”.
“Novamente repito, não é piada. Então, a partir do momento que você coloca isso, ignorando legislações superiores que caracterizam o sexo da pessoa como homem e mulher, X e Y, baseado na ciência, e você entra com uma característica de autodeterminação, fica algo muito vago porque coloca em situação delicada tanto a pessoa que se autodetermina quanto as pessoas que estão ao redor dela”, alertou.
A sessão discutia um projeto de lei de 2018 do vereador Tarcísio Motta (PSol), que tem por objetivo regulamentar o tratamento e proteção de dados pessoais pela administração pública municipal.
O termo “autodeterminação informativa” já consta na Lei Federal 13.709/2018, sancionada pelo governo Michel Temer, e se repete na proposta discutida na Câmara.
Quando a lei federal foi aprovada, em maio de 2018, o então deputado Jair Bolsonaro estava na sessão da Câmara que aprovou a matéria em votação simbólica.
Socorro
O procurador do estado Rodrigo Valadão, um dos convidados da sessão virtual, chegou a tentar acudir o vereador, alertando-o sobre o equívoco, e assegurou que ele poderia ficar 100% tranquilo em relação ao termo.
“Vereador Carlos Bolsonaro, você pode ficar 100% tranquilo (…) Me parece que há uma compreensão talvez não muito exata. Essa ideia da autodeterminação informativa significa que toda pessoa tem o direito sobre o conhecimento dos seus próprios dados, quem vai tratar os seus dados, em que medida vai tratar os seus dados ou não, não tem nenhuma relação com orientação política, sexual, enfim…”, explicou.
No entanto, o socorro não chegou a ser percebido por Carlos Bolsonaro, que não admitiu a confusão e apontou que o termo dava margem a várias interpretações:
“A gente entende que no Brasil, quando se toca em determinados assuntos, abre-se margem para diversas interpretações. Inclusive, novas determinações de leituras que estamos vendo aos montes nos tribunais superiores. Vamos buscar amarrar mais juridicamente esse parágrafo, para que a gente não dê margem para que futuros problemas aconteçam e coloquem insegurança jurídica nessa proposta e no entendimento geral dessa matéria”.

Presidente Jair Bolsonaro e seu filho Carlos Bolsonaro participam de uma festa infantil no clube Naval em Brasilia durante a crise de oxigênio em Manaus. Cerca de 40 pessoas participam do evento e muitos dos presentes não utilizam máscara de proteção. Local: Setor de Clubes Sul. Igo Estrela/Metrópoles

Presidente Jair Bolsonaro e seu filho Carlos Bolsonaro participam de uma festa infantil no clube Naval em Brasilia durante a crise de oxigênio em Manaus. Cerca de 40 pessoas participam do evento e muitos dos presentes não utilizam máscara de proteção. Local: Setor de Clubes Sul. Igo Estrela/Metrópoles

Vereador do Rio Carlos Bolsonaro (Republicanos) Divulgação/Câmara Municipal do Rio de Janeiro

Carlos é acusado de fazer parte do gabinete do ódio no Palácio do Planalto Renan Olaz/CMRJ
“Mentirosos descarados”
Depois, nas redes sociais, Carlos manteve a postura, negando que tenha errado e dizendo estar ciente dos projetos em discussão.
Confundi porcaria alguma. Estava ciente dos dois projetos em discussão. Quanto ao de proteção de dados me posicionei favorável e quanto ao segundo levantei questões e confeccionei emenda para tal proposta. Mentirosos descarados! pic.twitter.com/DaPe24QxtD
— Carlos Bolsonaro (@CarlosBolsonaro) April 21, 2021
O filho do presidente ainda tentou se desvencilhar das críticas sugerindo que as pessoas assistissem a íntegra da sessão.
“Aos inocentes, sugiro assistir a reunião na íntegra, pois criar narrativas falsas sem assistir o todo é algo minimamente desonesto. Querem transformar algo produtivo em mais uma falácia. Reunião produtiva e com assuntos pertinentes. Se reclamam é que estamos incomodando”, escreveu.
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